quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ALTO SUFICIÊNCIA DO ESTADO DO RN EM COMBUSTÍVEL ESTAR LONGE DE CHEGAR?



A TÃO ESPERADA autossuficiência potiguar na produção de gasolina, apontada como o principal ganho que a construção da Refinaria Potiguar Clara Camarão traria para o Rio Grande do Norte, hoje só pode ser considerada como um sonho distante. Operando próximo ao limite de capacidade, a produção mensal do combustível na RPCC é de 32 mil m3, o que tem sido insuficiente para atender a demanda do mercado norte-rio-grandense. O estado registrou, neste ano, consumo de 34 mil m3/mês, e com a perspectiva de continuar crescendo.
O “boom” no consumo de gasolina tem sido um fenômeno registrado em todo o país. Segundo dados publicados em reportagem da Folha de São Paulo no último domingo, o Brasil registra neste ano o consumo histórico de 36 bilhões de litros de gasolina. Como as refinarias de petróleo que produzem esse derivado em maior quantidade estão localizadas na região sudeste, os estados do norte e nordeste, como Pará, Amapá, Maranhão, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte estão mais suscetíveis à um possível colapso no sistema de combustíveis. Isso porque boa parte da gasolina que abastece o mercado dessas regiões chega através de caminhões ou navios. No entanto, os sistemas de transporte também esbarram na falta de infraestrutura - tanto das rodovias, estreitas demais para a passagem dos caminhões, quanto dos portos, que em sua maioria não possuem estrutura para atracação ou armazenamento de grandes navios.
Esse panorama não tão positivo foi apresentado à pesquisadores e empresários durante o I Fórum Estadual de Energia no RN, promovido na Assembleia Legislativa do Estado. Os dados foram apresentados na palestra “A Refinaria Potiguar Clara Camarão e sua importância regional e nacional”, ministrada pelo gerente geral da refinaria, Daniel Sales Correia. “Houve um boom de gasolina no Brasil, e nós (A Petrobrás) previmos errado a necessidade de consumo do combustível. A necessidade que o mercado possui hoje era prevista para os próximos três ou quatro anos. Se nós mantivéssemos o ritmo de produção do início (da refinaria) durante esses quatro anos, com certeza já seríamos autossuficientes. A única questão é que o mercado também cresceu e passou a exigir mais. Por isso, a empresa tem investido na reestruturação e na produção das refinarias”, declarou Correia. Segundo dados das Petrobrás, as refinarias estão produzindo em até 98% da sua capacidade.
No caso da RPCC, a capacidade de produção tem girado em torno de 102%, com liberação da Agência Nacional de Petróleo (ANP). São 6 mil barris de gasolina produzidos diariamente. No entanto, a demanda do estado pede uma produção de 9 mil barris/dia, que é somada ao combustível oriundo das refinarias do sul/sudeste. Um dos imbróglios desse sistema, ainda é o transporte do combustível através dos portos. A Petrobrás recebe, hoje, os containers de exportação através do Terminal Petroleiro Píer das Dunas. Porém, devido às limitações no calado do porto de Natal - com 12,5m, não possui capacidade para receber grandes embarcações-, a empresa petroleira fechará o píer no fim deste ano, passando a receber o combustível unicamente através das rodovias.
“O transporte de combustível através do porto é inviável. O Porto de Natal não está preparado para receber containers, nem para atender a capacidade de produção e crescimento do Pólo Industrial de Guamaré (localização da RPCC)”, criticou o gerente. Segundo Correia, o transporte rodoviário é uma solução a curto prazo. A Petrobrás investiu, neste ano, R$42 milhões para a construção de um novo quadro de bóias e duto submarino na refinaria. As bóias são uma forma de facilitar a atracação dos navios grandes, uma vez que a região da refinaria sofre por possui um mar muito raso. O único entrave para a construção do quadro tem sido a liberação da licença ambiental do IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente), ainda em análise. “Permaneceremos com esse sistema pelos próximos seis ou oito meses. A ideia é que até o meio do ano que vem o quadro de bóias esteja construído”, considerou Correia. Contudo, o gerente também alerta para o risco de um colapso no fornecimento de combustíveis caso a estrutura não seja construída. “Daqui a quatro anos, quando também tivermos uma estagnação na produção de diesel, será preciso misturar o nosso óleo com o que vem de estados vizinhos. E para isso também vamos depender dessa estrutura para receber os navios”, pontuou.
Diesel para exportação
Se por um lado a gasolina é um sonho ainda impossível, a autossuficiência do estado na produção de diesel é uma realidade. O RN não só é autossuficiente como exporta o combustível. Desde a abertura da Refinaria Potiguar Clara Camarão, em 2009, o estado tem crescido anualmente na produção do derivado de petróleo, chegando a produção de 1794m3/dia e 57 mil m3/mês. O mercado potiguar registrou, até outubro deste ano, um consumo de 50mil m3/mês. A produção excedente tem sido escoada para estados vizinhos, como Ceará e Paraíba. “No caso do diesel, a produção e o mercado estão crescendo juntos. A produção de combustível ainda está a frente, mas como em toda refinaria, prevemos uma estagnação nos próximos anos. É preciso pensar alternativas”, comentou o gerente geral da refinaria, Daniel Sales Correia.
Localizada no Pólo Industrial de Guamaré, a RPCC foi construída em 2009. Até então, o Rio Grande do Norte contava, apenas, com uma EP (Estação de Produção), enviando o petróleo para ser refinado nos pólos de Recife ou Maranhão. Com o investimento de R$192 milhões, proveniente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o estado tinha o objetivo de se tornar autossuficiente em derivados de petróleo. A RPCC foi uma das cinco refinarias que recebeu investimentos da Petrobrás para, fazendo parte de um plano de ampliação da produção de petróleo em 1,2 milhões de barris por dia até 2015.
O índice já foi batido e a RPCC foi a refinaria que representou o maior crescimento para a Petrobrás entre 2011 e 2012. O pólo, que produz gasolina, diesel, gás natural e querosene de aviação, representou 13% na produção de derivados da Petrobrás. No total, desde o início da sua criação, a refinaria registrou um crescimento de 84% na produção de derivados (1 bilhão de m3) O diretor do Cerne (Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia) e representante estadual do Instituto Brasileiro de Pesquisa em Petróleo e Gás, Jean Paul-Prates, acredita que os números de produção da refinaria dão uma mostra do potencial de produção do estado.
“Esses números mostram que a refinaria Clara Camarão não é uma refinaria de brinquedo ou de ‘me engana que eu gosto’. Foi investido dinheiro e está dando resultado. Essa produção rebate as críticas que nasceram por a RPCC ser uma estrutura pequena. Refinaria pequena não quer dizer que não é rentável”, reiterou.
Por possuir uma estrutura de 25 mil m2 e área construída de 20 mil m2, muita gente acredita que a RCPP não é uma refinaria - informação rebatida pelo gerente geral. “Ela não é uma microrrefinaria, pois produz mais de 2 mil barris de petróleo diariamente. Temos que ter orgulho da produção estadual”, declarou Daniel Sales Correia.
Combustível de aviação registra queda
O único componente que registrou retração na produção foi a querosene de aviação (QAV), seguindo uma tendência brasileira. No ano passado, a QAV tinha registrado um crescimento de 10,8% na produção (6,250 bilhões de litros). No RN, a produção cresceu em 50% entre 2009 e 2011. Neste ano, no entanto, a produção ficou em 128.040 m3 - registrando uma retração de 10% com relação ao ano anterior. O desaquecimento da produção e do mercado neste ano, de acordo com o gerente da refinaria, aconteceu devido à uma questão tributária: estorno de crédito.
O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) possui valores diferentes em casa estado. Sendo assim, quando a produto sai do RN para ser comercializado em outra região, o governo do estado deve ressarcir ao produtor a diferença - o que não estava acontecendo neste ano. Segundo Daniel Sales Correia, já houve uma conversa entre a produtora e o governo para assegurar o retorno do crescimento no próximo ano. De acordo com o gerente, a prioridade da Petrobrás é continuar o ritmo de produção e investir num crescimento de 100%. “Com a reestruturação do sistema de transporte pelas estradas, a construção do quadro e bóias e um possível crescimento da mão-de-obra qualificada, ainda em falta aqui no estado, prevemos o crescimento da produção. O nosso pólo já se destaca porque o refinamento fica do outro lado da rua de onde o petróleo é produzido, o que facilita as coisas”, estimou o gerente.
Um Centro de Luz para o Nordeste
ATÉ O FINAL de 2013 o Rio Grande do Norte terá um acréscimo de 600 Km de linhas de transmissão de 230 KV (quilovolt) para transportar a energia produzida pelas usinas eólicas em operação no estado. A nova rede de transmissão vai contemplar as subestações de Touros e Mossoró e as interligações das linhas entre elas. Este é o prazo dado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para que a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) conclua os serviços. A Chesf arrematou três dos oito lotes de transmissão de energia durante o leilão para concessão de linhas de transmissão, mês passado. Um deles, o lote B, está situado em território potiguar.
De acordo com o superintendente de projetos e construção de transmissão da Comanhia, Antônio Varejão, a implantação da rede está em processo de aquisição de terrenos, mas os contratos para fornecimento de serviços e de materiais já foram assinados. “Estamos com os projetos básicos em fase final de desenvolvimento e nestas subestações vamos utilizar equipamentos de módulos compactos que facilitam o tempo de montagem da obra”, relata. O investimento é da ordem de R$ 678 milhões na construção das subestações e linhas de transmissão de energia no Rio Grande do Norte e somente neste ano já foram investidos cerca de R$ 160 milhões.
De acordo com Varejão, trata-se de um sistema de linhas de transmissão de energia que até o final de 2013 vai interligar os parques eólicos de João Câmara e Extremoz até a subestação de Natal, seccionando a entrada desta, cuja linha será levada até João Câmara. Além disso, serão ampliadas as linhas que interligam o sistema já existente de Mossoró II com a nova subestação Mossoró IV e com a de Touros. Esses empreendimentos são imprescindíveis para o funcionamento dos parques eólicos instalados no estado, cuja energia produzida será distribuída através dessas estruturas, que se ligam às redes distribuidoras. “Nos próximos três anos o Rio Grande do Norte estará entre os estados mais bem atendidos com as linhas de transmissão”, prevê Antônio Varejão.
Ele relembra que no próximo leilão, marcado para o dia 5 de dezembro na Bovespa, em São Paulo, um novo lote inclui o Rio Grande do Norte. Com isso serão levados para o sistema de linhas mais 500 KV às regiões Oeste e Central do estado, com prazo para entrar totalmente em operação a partir de agosto de 2014. “Com todas essas linhas construídas, o Rio Grande do Norte será um centro produtor de energia, trazendo confiabilidade para toda a região Nordeste”, destaca. E acrescenta: “Vai transformar-se num parque hidrelétrico com um porte similar a uma das usinas do complexo de Paulo Afonso”.
O superintendente da Chesf esteve em Natal para participar do I Fórum de Energia, promovido pela Assembleia Legislativa, e deixou claro que a companhia tem todo o interesse em cumprir com os prazos, tanto que buscará formas alternativas de iniciar a transmissão de energia mesmo com os serviços inconclusos por questões burocráticas. “Mesmo sem atender a todos os procedimentos de rede, vamos iniciar implantando, por exemplo, um transformador na própria eólica para viabilizar a transmissão”, informa.
Sem redes, potencial não é aproveitado
A grande restrição de investimento na produção de energia eólica no Rio Grande do Norte é a falta de conexão. Não há redes de transmissão da energia que produz. O estado se iguala nesse quesito com os outros estados que também produzem energia a partir ventos. Para os empresários do ramo de energia eólica, caso já houvesse as linhas de transmissão, os investimentos seriam maiores. “Se eu investir e não tiver conexão, estou com o investimento parado sem gerar recursos. Quando colocamos hoje na média 1.000 MWt por ano e temos um potencial de 120 MWt, vamos demorar 120 anos para usar o potencial enquanto poderia fazer 120 anos em 10, é só se antecipar a isso”, sugere Mário Augusto Lima, diretor de Energia do grupo Serveng, que está implantando seu primeiro complexo de geração de energia eólica, nos municípios de Pedra Grande e São Miguel do Gostoso.
Atualmente parte da energia eólica produzida no estado é conectada à Cosern e outra parte no sistema interligado que já existia. “O problema é que essas linhas já estão sobrecarregadas e hoje não se consegue mais conectar energia nova nessas condições”, relata o diretor da Serveng. Como exemplo ele cita o caso da usina em João Câmara, que já produz 200 MWt desde julho passado mas não tem como conectá-la. “Está com o fio pendurado no poste esperando uma subestação nova ser instalada em João Câmara, mas a previsão de instalação é para julho de 2013 na melhor da hipóteses”, reclama.
O diretor técnico da MS Renováveis que também atua no ramo potiguar, Nicorray Santos, compartilha do mesmo pensamento e ressalta que nenhuma das ampliações foram realizadas até o momento, estando apenas em fase inicial, assim como em outros estados. Ele diz que assim como em João Câmara, na Bahia um parque de 200 MWt não consegue conectar porque não foi feita a conexão. “Na ICG (Instalações de Centrais de Geração) João Câmara nada foi feito para viabilizar uma série de parques eólicos lá, então percentual é zero de implantação. Nos outros foi feito muito pouco ou quase nada em transmissão nova ou na que já existe”, reclama Nicorray. Ele alerta que os principais prejuízos podem ser para o consumidor caso não ocorram mudanças nas ampliações e reformas na área de renováveis, no que diz respeito à conclusão dos projetos.
Cosern garante infraestrutura para atender demanda
O Superintendente de Engenharia da Cosern, Walmary Nunes, garantiu que o órgão tem toda a estrutura para atender à demanda que aumenta especialmente no período de alta estação. Ele também participou do Fórum de Energia e declarou que mesmo com um acréscimo de 6% no consumo, não há riscos de interrupção porque o órgão está preparado para tanto. “A estrutura atende à demanda do estado dentro do seu crescimento, mesmo nesse período onde o consumo também aumentou por causa dos efeitos da estiagem já que no campo, é comum que se use mais água na irrigação da lavoura e com isso energia para bombear esse serviço”, explicou. De acordo com Nunes, até o final de outubro, a demanda do ano atingiu em 805 MWt (megawatts) com uma média anual de 750 MWt. Com o aumento da produção de energia eólica, ele prevê que a energia produzida pelas águas poderá ser poupada. “A energia eólica é complementar. Com ela pode-se economizar na energia hidráulica, retendo os reservatórios para momentos de maior necessidade como a estiagem”, prevê.
Fonte: Novo Jornal

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